Cafarnaum: o que a arqueologia achou
Um vídeo de 15 minutos. O vídeo estreia em breve no YouTube; enquanto isso, você já pode ler o resumo, os capítulos e o texto completo.

Na capa, a gravura «Jesus cura os doentes», de Gustave Doré.
Os Evangelhos dizem que Jesus foi morar em Cafarnaum, na beira do mar da Galileia. O que as escavações acharam lá? E o que dá para provar?
Neste vídeo: a aldeia de basalto e os telhados de terra e palha, a sinagoga branca e as três datas que os pesquisadores propõem para ela, o piso de basalto do século I que está embaixo, e a casa que virou igreja e depois igreja octogonal, com o relato da peregrina Egéria. Sem sensacionalismo: cada informação tem fonte, listada nesta página, e onde os pesquisadores discordam, as leituras aparecem lado a lado.
O texto completo do vídeoLer
0:00Pedra branca, pedra preta
Na margem noroeste do mar da Galileia, há um lugar onde a pedra branca está em cima da pedra preta.
A branca é calcário, trazido de pedreiras distantes. A preta é basalto, a pedra vulcânica do próprio lugar.
Esse lugar é Cafarnaum, a aldeia para onde, segundo o Evangelho de Mateus, Jesus se mudou. E essas duas cores resumem o que a arqueologia achou lá.
0:27A aldeia nos textos
Primeiro, os textos. Mateus conta que Jesus deixou Nazaré e «foi habitar em Capernaum, cidade marítima». É assim, Capernaum, que a Almeida Revista e Corrigida de 1904 grafa o nome.
Em Marcos, a primeira cena na aldeia acontece num sábado: «E entraram em Capernaum, e, logo no sábado, entrando na sinagoga, ensinava.»
Depois vêm a casa de Simão e de André, a sogra de Simão com febre e, ao pôr do sol, uma multidão: «E toda a cidade se ajuntou à porta.»
João também põe ali um discurso de Jesus: «Ele disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Capernaum.» E Lucas conta de um centurião romano de quem os anciãos diziam: «ele mesmo nos edificou a sinagoga.»
Fora da Bíblia, a aldeia aparece em Flávio Josefo, historiador judeu do século I. Ele descreve uma fonte muito fértil que o povo da região chamava de Cafarnaum.
E, na autobiografia, conta que o cavalo dele caiu num atoleiro. Josefo machucou o pulso e foi levado para uma aldeia que o tradutor William Whiston chama de «Cepharnome, ou Capernaum».
Em hebraico, o nome é Kfar Nahum: aldeia de Naum. E era isso mesmo, uma aldeia. Segundo o arqueólogo Stanislao Loffreda, as ruínas cobrem uns 6 hectares, e no auge, já no período bizantino, o lugar podia ter uns 1.500 moradores.
2:10Quem cavou, e quando
Durante séculos, Cafarnaum foi só ruína. Em 1838, o americano Edward Robinson passou por lá e escreveu que o lugar inteiro era desolado e triste. Ele reconheceu, entre as pedras, as ruínas de uma sinagoga.
Em 1866, o inglês Charles Wilson identificou aquelas ruínas, que em árabe se chamavam Tell Hum, como a antiga Cafarnaum.
Nos anos seguintes, as pedras da sinagoga foram levadas e quebradas. Em 1894, os franciscanos da Custódia da Terra Santa compraram boa parte do terreno e chegaram a cobrir as ruínas com terra, para protegê-las.
Em 1905, os alemães Heinrich Kohl e Carl Watzinger escavaram a sinagoga. Outros frades continuaram o trabalho, e, nos anos 1920, o franciscano Gaudenzio Orfali começou a reerguer parte do prédio.
A virada veio em 1968. Os franciscanos Virgilio Corbo e Stanislao Loffreda, do Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, escavaram ali quase sem parar até 1991. Houve campanhas até 2003.
No lado leste, que pertence ao Patriarcado Greco-Ortodoxo, Vassilios Tzaferis, do Departamento de Antiguidades de Israel, fez cinco temporadas, de 1978 a 1982.
Poucos lugares da região foram escavados tão a fundo. E o que apareceu primeiro foi uma aldeia comum.
3:54A aldeia de basalto
As casas eram de basalto, a pedra preta do lugar, usada como saía do chão. Não tinham alicerce de verdade nem argamassa forte, pelo menos nos períodos helenístico e romano.
Cada casa era um conjunto de cômodos pequenos em volta de um pátio grande. No pátio ficavam o forno e as mós de moer grão. Por uma escada de pedra, subia-se ao teto.
E o teto era leve: vigas de madeira cobertas de terra batida misturada com palha.
Agora, lembre de Marcos, capítulo 2. «descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico.»
Isso não prova que a cena aconteceu. Mostra outra coisa: o detalhe do telhado combina com o jeito de construir da aldeia.
A aldeia vivia da pesca, da lavoura, do artesanato e do comércio. Os arqueólogos acharam prensas de azeite, mós para trigo, pilões e tigelas de pedra, quase tudo de basalto. Algumas peças estavam inacabadas: eram feitas ali mesmo.
Eram casas modestas, mas não pobres, e sem grandes diferenças entre uma família e outra.
E a aldeia tinha uma posição especial. Segundo Loffreda, ficava a uns cinco quilômetros do alto Jordão, a fronteira entre as terras de Herodes Antipas e as de Filipe, perto de uma estrada imperial. Em 1975, apareceu ali um marco de estrada com o nome do imperador Adriano. Loffreda liga essa fronteira à alfândega de Marcos, capítulo 2, onde Jesus viu «Levi, filho de Alfeu, assentado na alfândega».
Uma aldeia de fronteira, de pescadores e lavradores. Mas casa, forno e prensa não dizem quem passou por ali.
5:47A sinagoga branca e o piso preto
No centro da aldeia está o prédio que todo mundo fotografa: a sinagoga branca.
Ela foi feita quase toda de blocos de calcário branco, trazidos de pedreiras a vários quilômetros. O bloco mais pesado chega a quase quatro toneladas. O prédio fica sobre uma plataforma artificial, com a fachada voltada para o sul, para Jerusalém.
É a sinagoga onde Jesus pregou? Não. Nisso os pesquisadores concordam. O franciscano Gaudenzio Orfali achava que sim, mas essa data foi rejeitada.
A discussão é outra: quando ela foi construída. E há três leituras.
A primeira vem de Kohl e Watzinger e foi seguida por estudiosos israelenses: entre o fim do século II e o século III, pelo estilo, parecido com o de outras sinagogas da Galileia.
A segunda é dos escavadores, Corbo e Loffreda: o salão é do fim do século IV, e o pátio ao lado ficou pronto depois de meados do século V. Eles se apoiam na cerâmica e em dezenas de milhares de moedas achadas no aterro e na argamassa debaixo do piso.
Os defensores da data mais antiga respondem que o piso pode ter sido refeito no século IV, o que explicaria as moedas.
A terceira é da pesquisadora Jodi Magness: começo do século VI, porque há cerâmica e centenas de moedas da primeira metade desse século debaixo do prédio. A regra é simples: a moeda mais nova debaixo de um piso mostra o mais cedo que ele pode ter sido feito.
Estas são as leituras.
Agora, o que está embaixo. Em 1981, Corbo e Loffreda abriram valas no meio do salão. Debaixo do piso, da argamassa e do aterro, a mais de um metro de fundo, apareceu um piso de pedras de basalto. A cerâmica achada nele e debaixo dele é do século I, ou mais antiga.
E, sob as paredes brancas, há muros de basalto mais antigos, com cerca de um metro de espessura, reaproveitados como alicerce.
Para os escavadores, esse prédio de basalto é a sinagoga do século I, a que Lucas atribui ao centurião. Um artigo da revista Biblical Archaeology Review, de 1983, disse que a sinagoga onde Jesus pregou provavelmente tinha sido achada, mas avisou: a aldeia podia ter mais de uma sinagoga.
Outros são mais cautelosos. O professor de Bíblia Pieter Lalleman escreveu, em 2019, que, fora a localização, pouca coisa indica que o prédio era mesmo uma sinagoga.
Nem os dois escavadores concordavam em tudo: Corbo via os muros de basalto como do século I; Loffreda admitia que fossem de uma fase intermediária.
9:00A casa que virou igreja
A uns trinta metros ao sul da sinagoga, entre ela e o lago, os franciscanos escavaram um quarteirão de casas. Deram a ele o nome de insula sacra, o quarteirão sagrado.
As casas foram construídas por volta do século I antes de Cristo e eram comuns: cômodos pequenos em volta de pátios. Mas uma sala, de uns seis a sete metros de lado, teve outro destino.
Na segunda metade do século I, o piso e as paredes dessa sala foram rebocados, coisa rara nas casas da aldeia. Os potes de cozinha somem. No lugar, aparecem lamparinas e jarros grandes. Para os escavadores, a sala deixou de ser moradia e virou lugar de reunião.
Nas paredes rebocadas, eles contaram 175 inscrições riscadas: 151 em grego, 13 em siríaco antigo, 9 em aramaico e 2 em latim. O nome de Jesus aparece, chamado de Senhor e de Cristo. Há expressões de oração, como amém e Kyrie eleison, «Senhor, tende piedade». Pela forma das letras, as mais antigas seriam do começo do século III.
No fim do século IV, o quarteirão foi cercado por um muro, e a sala ganhou um arco no meio e um piso novo. Virou uma igreja doméstica.
Nessa época passou por ali uma peregrina chamada Egéria, entre 381 e 384. O relato dela chegou até nós incompleto, mas Pedro Diácono, monge de Monte Cassino, copiou trechos em 1137. Sobre Cafarnaum, o trecho diz: «Em Cafarnaum, da casa do príncipe dos apóstolos se fez uma igreja, cujas paredes estão de pé até hoje, assim como eram.» O príncipe dos apóstolos, no texto, é Pedro.
Na segunda metade do século V, tudo isso foi aterrado. Por cima, ergueram uma igreja de oito lados, com um pavão no mosaico do centro. O octógono central foi assentado exatamente sobre as paredes daquela sala.
Por volta de 570, um peregrino anônimo de Piacenza, na Itália, escreveu: «viemos a Cafarnaum, à casa do bem-aventurado Pedro, que agora é basílica.»
Em 1990, foi dedicada uma igreja moderna, construída sobre as ruínas. No centro, um piso de vidro deixa ver o octógono lá embaixo. Virgilio Corbo morreu em 1991 e foi sepultado ali.
Então, é a casa de Pedro?
Para os escavadores franciscanos, sim: a sala foi transformada em lugar de culto pelas primeiras gerações de cristãos da aldeia, e algumas inscrições trazem o nome de Pedro.
Muitos pesquisadores contestam essas leituras do nome de Pedro nas inscrições.
E há uma leitura intermediária. Pieter Lalleman lembra que não existe prova acadêmica de que a casa fosse de Pedro, mas também não vê razões convincentes para duvidar da tradição.
Estas são as leituras.
12:23Três frases e o que a escavação mostra
Com tudo isso, dá para testar três frases. Duas aparecem em títulos na internet. A terceira está no Evangelho.
Primeira: «encontraram a casa onde Jesus morou». A escavação mostra uma casa que já existia no tempo de Jesus, tratada de um jeito especial e venerada por cristãos, pelo menos desde o século IV. O que ela não mostra, sem discussão, é quem morava ali. A própria Biblical Archaeology Society, que vê muitos indícios a favor, escreve que não há prova definitiva.
Segunda: «a sinagoga onde Jesus pregou». A que está de pé é de séculos depois. O candidato do século I é o piso e os muros de basalto lá embaixo, e mesmo ele é leitura dos escavadores, não certeza.
O título daquele artigo de 1983 era justamente este: «Sinagoga onde Jesus pregou encontrada em Cafarnaum». Mas a primeira frase do texto já dizia «provavelmente».
A terceira frase é de Jesus, em Mateus: «E tu, Capernaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos.»
O que a arqueologia diz sobre isso? Pouco, e é bom saber o limite. Ela não mede o sentido de uma frase de Jesus. Mede outra coisa: a aldeia continuou ali.
Segundo Loffreda, não há sinal claro de uma destruição geral nos períodos romano e bizantino. Foi depois de Jesus que ergueram a sinagoga branca e a igreja de oito lados. E a aldeia só foi abandonada por volta do ano mil.
O sentido da frase é assunto de interpretação e de fé. A pá não responde a essa pergunta.
14:24Resumo
Resumindo. Cafarnaum talvez seja o lugar onde a arqueologia chega mais perto do Jesus dos Evangelhos. E justamente por isso mostra a diferença entre o que se pode provar e o que se crê.
A pedra preta prova uma aldeia de pescadores e lavradores do século I. A pedra branca prova que, séculos depois, a aldeia ergueu ali uma sinagoga monumental. E a casa debaixo da igreja prova que cristãos guardaram aquele lugar como a casa de Pedro, pelo menos desde o século IV.
Daí em diante, é fé. E a fé merece ser chamada pelo nome, não de prova.
Até a próxima.
De onde vem cada informação15 fontes
O minuto mostra em que ponto do vídeo cada fonte aparece. Os links levam à fonte.
- i0:10Mateus 4:13. Bíblia Sagrada, Almeida, Edição Revista e Corrigida, Nova York, Sociedade Bíblica Americana, 1904, com a grafia de hoje.archive.org
- ii0:10S. Loffreda, «Capharnaum, the Town of Jesus», Studium Biblicum Franciscanum e Custódia da Terra Santa, 2001 (páginas «Surveys and Excavations», «The Village», «The Synagogue», «Insula sacra», «Periods of Occupation»). Cópia do Internet ArchivePesquisa históricaweb.archive.org
- iii0:46Marcos 1:21, 1:29-33; João 6:59; Lucas 7:3-5 (Almeida de 1904, grafia de hoje).archive.org
- iv0:46Flávio Josefo, Guerra dos Judeus III.10.8 (c. 75) e Vida 72 (c. 94-99). Trad. inglesa de William Whiston (1737). Domínio público.Tradição judaica antigagutenberg.orgsacred-texts.com
- v0:46Verbete «Capernaum», Wikipedia em inglês (consultado em 29/09/2026).Pesquisa históricaen.wikipedia.org
- vi2:12J. F. Strange e H. Shanks, «Synagogue Where Jesus Preached Found at Capernaum», Biblical Archaeology Review 9:6, 1983, p. 24-31.Pesquisa históricalibrary.biblicalarchaeology.org
- vii3:29Marcos 2:4 e 2:14 (Almeida de 1904, grafia de hoje).archive.org
- viii3:29BAS, «The House of Peter: The Home of Jesus in Capernaum?», Bible History Daily, 2011.Pesquisa históricabiblicalarchaeology.org
- ix5:16T. Rassalle, «Capernaum», The Ancient Synagogue Coins Website (tese digital), 2021, com a datação de J. Magness (2001 e 2012).Pesquisa históricaancientsynagoguecoins.com
- x5:16Bornblum Eretz Israel Synagogues Website, Kinneret College, «Capernaum» (C. Ben David, M. Osband, M. Aviam).Pesquisa históricasynagogues.kinneret.ac.il
- xi5:16P. J. Lalleman, «Capernaum and the 'House of Peter': what we can and can't say about it», Christian Today, 08/08/2019.Pesquisa históricachristiantoday.com
- xii8:06Egéria, Itinerário (c. 381-384), trecho conservado por Pedro Diácono, Liber de locis sanctis (1137); e Anônimo de Piacenza, Itinerário 7 (c. 570). Ed. P. Geyer, Itinera Hierosolymitana saeculi IIII-VIII, CSEL 39, Viena, 1898, p. 112-113 e 163. Tradução da redação.archive.org
- xiii8:06Verbetes «Egeria (pilgrim)», «Peter the Deacon» e «Anonymous pilgrim of Piacenza», Wikipedia em inglês (consultados em 29/09/2026).
- xiv11:02Títulos na internet: busca da redação em 29/09/2026 (nenhum canal é citado).
- xv11:02Mateus 11:23 (Almeida de 1904, grafia de hoje).archive.org
Texto bíblico: Almeida, Edição Revista e Corrigida, Nova York, Sociedade Bíblica Americana, 1904, com a grafia de hoje. A edição grafa o nome como «Capernaum», e as citações mantêm essa forma.
Achou um erro? Conte para a gente.
De onde vêm as imagens14 imagens













- A sinagoga branca de Cafarnaum não é a de JesusEm breve
- Cafarnaum: a casa que virou igrejaEm breve
- E tu, Cafarnaum: o que a arqueologia medeEm breve